quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Regressar II

Eram 21h30. Pela primeira vez fui o último a sair. Fui aquele que confirma os computadores desligados, as janelas fechadas. Aquele que apaga a última luz. Saí com medo do escuro de corredores silenciosos e salas escuras. Daí que só olhava em frente. Como daquela noite em que atravessámos um campo de pasto com gado que mugia à nossa volta procurando proteger as crias dos intrusos. As fugas para a frente nunca se esquecem. O passo acompanha o olhar. Intrépido mas seguro.

Lembro-me como se o tivesses dito. Não disseste, mas eu sentia-o. Não querias ser tu a apagar a luz. Eu já tinha ido embora há tanto, que não era mais do que um visitante de cartão na lapela. A minha secretária arrumada, pertences pessoais no caixote. Era mais do que um visitante, era um antigo colaborador. Seria escusado, uma vez que todos me conheciam, mas era a regra da casa e tinha de usar o cartão. E pessoas com cartão de visitante não apagam a luz pela simples questão de que não serão as últimas a sair. Normalmente, vão ver alguém, são convidadas. Se não o fossem, não entravam. E pessoas convidadas não são as últimas a sair. Logo não apagam a luz. E mesmo que fossem elas a apagar a luz, elas não podiam, porque não saberiam onde se apaga. Eu nunca soube do interruptor. Acho que tu também não. No fundo, ninguém queria ou alguma vez quis apagar a luz. E eu, eu vou lá só ver se a luz ainda está acesa.


João