esvaziar Florença de mim
As paredes do meu quarto já estão vazias de mim, as fotografias da vida que não pude trazer comigo já estão num monte prontas a entrar na mochila, essa vida que não trouxe foi tão fácil de transportar, a cidade de Lisboa que amo tanto e cujas ruas se encontram pela palma da minha mão, a minha família que esteve por cá de visita mas que foi como se sempre me acompanhasse, os amigos que não estiveram cá para amparar as minhas quedas e para voar comigo pelas noites e até aqueles que estiveram, poucos mas bons e percorreram comigo os caminhos que foram a minha vida nestes meses, nestes segundos. Uma vida de vinte e poucos anos foi introduzida numa mochila por sua vez introduzida num avião e num comboio e chegou a uma nova morada, Via Maso Finiguerra 11 DeSimone, Florença, Itália. Nada disto foi um problema, nada disto custou e nada devia custar mais do que isto. Mas é aqui que me engano, queria agora pegar nesta vida dos últimos meses, nesta cidade com o seu rio e todas as suas pontes, nestas pessoas que colidiram dias a fio comigo e que só posso ter esperança de as vir a reencontrar, em todos os percurssos que fiz, em todas as partidas e chegadas, encontros e despedidas, e se puder em todos os momentos que se congelam no coração e no olhar e em todas as canções que bebi e partilhei sofregamente, queria introduzir tudo isto na minha mochila e num comboio e num avião e não consigo, antes de mais tenho apenas 20kg de bagagem que posso levar e tenho a mochila cheia com a vida que trouxe. Sei que vou conseguir transportar isto na memória mas o que me angústia é a impossibilidade de voltar a encontrar esta vida ponto por ponto, já neste momento faltam pedaços importantes- o que não faltará daqui a uns dias quando por fim esvaziar esta cidade de mim?
... ainda bem que há Tejo... e saudade .
... ainda bem que há Tejo... e saudade .

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home