segunda-feira, março 06, 2006

esvaziar Florença de mim

As paredes do meu quarto já estão vazias de mim, as fotografias da vida que não pude trazer comigo já estão num monte prontas a entrar na mochila, essa vida que não trouxe foi tão fácil de transportar, a cidade de Lisboa que amo tanto e cujas ruas se encontram pela palma da minha mão, a minha família que esteve por cá de visita mas que foi como se sempre me acompanhasse, os amigos que não estiveram cá para amparar as minhas quedas e para voar comigo pelas noites e até aqueles que estiveram, poucos mas bons e percorreram comigo os caminhos que foram a minha vida nestes meses, nestes segundos. Uma vida de vinte e poucos anos foi introduzida numa mochila por sua vez introduzida num avião e num comboio e chegou a uma nova morada, Via Maso Finiguerra 11 DeSimone, Florença, Itália. Nada disto foi um problema, nada disto custou e nada devia custar mais do que isto. Mas é aqui que me engano, queria agora pegar nesta vida dos últimos meses, nesta cidade com o seu rio e todas as suas pontes, nestas pessoas que colidiram dias a fio comigo e que só posso ter esperança de as vir a reencontrar, em todos os percurssos que fiz, em todas as partidas e chegadas, encontros e despedidas, e se puder em todos os momentos que se congelam no coração e no olhar e em todas as canções que bebi e partilhei sofregamente, queria introduzir tudo isto na minha mochila e num comboio e num avião e não consigo, antes de mais tenho apenas 20kg de bagagem que posso levar e tenho a mochila cheia com a vida que trouxe. Sei que vou conseguir transportar isto na memória mas o que me angústia é a impossibilidade de voltar a encontrar esta vida ponto por ponto, já neste momento faltam pedaços importantes- o que não faltará daqui a uns dias quando por fim esvaziar esta cidade de mim?

... ainda bem que há Tejo... e saudade .