Até sempre!
Porque tal como nós, quando estivermos longe, esperamos não ser esquecidos, estes dois senhores ficarão para sempre na nossa memória...
" - Então? - arriscou em voz baixa. - O político ainda lá está?
O Parrana certificou-se de que os guardas não estavam a ouvi-los.
- Está só um. Outro enlouqueceu. Outro mataram-no. Está só um.
- Continua isolado?
- Sim - respondeu o Parrana. - Só o Virgolino lhe pode levar o rancho. Não permitem que ninguém lá vá. Além do Virgolino ninguém mais lhe viu a cara.
O Augusto abanou a cabeça.
- É de mais. Há já mais de dois anos que o têm ali fechado. É de mais.
- Mais de três anos - corrigiu o Parrana. "
Manuel Tiago, in A Estrela de Seis Pontas
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto,
antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
Eugénio de Andrade

3 Comments:
Ainda não tinha acabado de lhe dizer adeus - ao Eugénio - quando lhe dei o primeiro olá. O primeiro poema que lhe li, sabendo que poeta ele realmente é.
Ele por ser o que escreve, eu por só agora ler o que ele escreve.
Joao
Um ponto para a Joana. Ela gosta do Manuel Tiago e não de Álvaro Cunhal, ou pelo menos a ele não faz referência explicita. Entre políticos e escritores, eu também escolho os segundos. Não costumava ser assim.
João
Existiria Manuel Tiago sem Álvaro Cunhal? A resposta é óbvia. Também prefiro os segundos, no entanto, a admiração e o respeito que tenho pelo Álvaro fica implícita. Também a ele lhe devemos a Liberdade.
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